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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Fórmula do Amor

Aqui nessa casa
Já não tem mais jeito
Queremos toda a sua admiração
Com todo respeito
Não queremos joguinho
Mas muito carinho
Para sorrirmos a toa

Aqui nessa casa
Ninguém quer a sua falta de atenção
Com todo respeito
Meu caro sujeito
Que não nos falte tesão
E assim
Seguimos amando
Numa boa

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A realidade é que se engana...

Quando estamos na calçada, tomamos uma buzinada para deixar o carro passar e os outros pedestres concordam com motorista do carro.  Quando, de origem pobre, chegamos a um cargo com bons salários e imaginamos que todos, através de mais esforço, podem atingir o mesmo, como se fosse uma questao de determinação e não de oportunidades para poucos. Quando questionamos injustiças das mais variadas e somos taxados de agressivos por termos opiniões diferentes da maioria sobre um assunto. Quando há crescimento econômico com  prosperidade para uns em detrimento de outros.  Quando o ponto eletrônico torna-se instrumento necessário não mais para controlar o trabalhodor, mas uma demanda destes como garantia do pagamento das horas extras. A realidade é que se engana quando um precisa esmagar o outro para se destacar, quando a fofoca, a armação e o individualismo são mais valorizados que a ideia de conjunto. A realidade é que se engana quando o cada um por si e a competitividade são enaltecidos e estimulados ao inves da cooperação e da união.  A realidade é que se engana quando o lucro fala mais alto que as pessoas. A realiadade é que se engana...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Amor nos tempos do Ford

Sonhei com um povo diferente. Não sei bem quem, nem o que era. Lembro que me referia a eles como povos marcianos.
Achei curiosa a forma como interagiam. Cheguei a sentir um pingo de inveja do desprendimento que tinham nos encontros, com aquele ar leve,  um olhar longe, mistura de ternura e desprezo. Ao conhecer outros marcianos, nesse mesmo sonho, percebi que isso era  uma característica comum a todos eles. Seria isso natural como olhos, boca, nariz e orelhas? Não. Não. Definitivamente não poderia afirmar isso, mesmo que eles agissem de formas bem parecidas. Também não poderia dizer que eles combinavam isso uns com os outros. Como poderiam, se muitos nem se conheciam? De onde viria então esse olhar, essa postura, essa fala e esse comportamento tão semelhantes? Esse lugar  era repleto deles. Tomavam conta de quase tudo. Era como se eu passasse o sonho inteiro inquieta com essa sensação.

Certas horas me pegava sendo envolvida por um encontro penetrante. Falas e gestos direcionados para um objetivo. E muitas vezes isso aconteceu. Entre os encontros,  um grande vazio. Um silêncio. As vezes, em encontros quase telepáticos, onde não nos víamos e não poderíamos nos tocar,  eles mudavam. Ali poderiam ser tudo. Era o mundo da fala onde tudo poderia ser criado.


 De repente, senti algo me puxar para o lado. O corpo  foi todo arrastado. Quando olho para trás, uma fila era arrastada junto comigo. Não me assustei. Parecia tudo muito organizado. Tudo esperado. Era só ficar parada que aquela esteira nos levaria para frente. E a cada movimentação, um novo marciano aparecia. O mesmo olhar, sorriso, conversa, os mesmos músculos, os mesmos objetivos. Trocávamos algumas palavras, éramos puxadas novamente e, quando via,  já tinha outro marciano. E tudo novamente.

Não sabia como sair dali. Olhava em volta e estavam todos seguindo aquele mesmo ritual, quando vi alguém descer. Repeti seus movimentos, encontrei uma bicicleta e saí. Pedalei em alta velocidade. Ventava.  De repente, não consegui mais passar. Uma marcha atravessava a rua. Querendo rapidamente sair dali, eu pensava: “marchem, marcianos”, enquanto eles desfilavam com seus olhares altivos e um sorriso de superioridade pelo caminho. Sigam, copiem seus pares. E assim, ridiculamente marchavam. E assim foi. Aquele espetáculo de corpos, gestos e músculos. Passaram.
O silêncio tomou conta do lugar. Continuei. Pedalava, não sabia para onde. Quando vi, estava no chão. Havia caído. Bati num grupo de gente que seguia a marcha dos marcianos. Um pouco tonta da queda, olho para o alto e vejo frases escritas por todos os cantos. Consegui me lembrar de uma: “ Nação marciana, o sistema já se encarrega da nossa exploração. Aqui, só com respeito”. Realismo na veia.

 Isso não foi o suficiente para melhorar o meu humor de bicicleta quebrada e arranhões pelo corpo. Até que passa um homem com um chapéu bizarro com dois chifres pregados. Andava feliz e contente pela rua. Gargalhei.

E acordei. Senti aliviada por ter saído daquele  mundo estranho. A superficialidade dos gestos incomodava. A utilidade dos encontros  intrigava. A futilidade daquelas conversas afastava. Desci para trabalhar. E lá estava o cornudo. Ri muito.

sábado, 2 de abril de 2011

Na Ilha

Na Ilha as pessoas iam e vinham.
Ficavam e depois desapareciam no mar. Antes de partir, aproveitavam todos, cada um a sua maneira, os encantos e desencantos daquele lugar. E assim foi.
Fantasias momentâneas, expectativas, esperanças, reconhecimentos. Toques. Trocas.
Depois era o adeus.
Até o próximo alguém encontrar a Ilha. Descansar, abastecer, encantar e transformar.

Os moradores, ilhados, sonhavam com o que poderia ter para além daquelas terras.
Os viajantes, experientes, queriam fazer mais estórias por lá.

Na Ilha havia muito o que fazer. As vezes passava o dia inteiro trabalhando. E assim o tempo passava.
Depois se divertia com a chegada dos que um dia partiriam. No início, aquilo incomodava um pouco, depois se acostumou. Aproveitava a presença, os momentos, as falas. Sabia que depois ia sentir falta, mas não deixava  isso atrapalhar a sua vontade de vivenciar o dia. Dia após dia.

Com o passar dos anos, aprendeu a ficar só e a conviver com a falta daqueles que partiam, mesmo que, quando a partida realmente acontecia, parecia que era um pedaço seu que ia.
Adorava escutar as estórias dos outros lugares. As vezes perguntavam-lhe se não queria ir embora também. Partir. Ver o que poderia ter de novo e diferente para além daquele oceano que o separava do resto do mundo.
Sair do seu ritmo cotidiano. Fazer coisas novas. Quem sabe aprender a contar estórias tão bem como as dos viajantes.
Mas como viveria longe dali?

Entendeu, depois de um tempo, que cada um vive com as condições que tem. As dele, simples, repetitivas, constantes. Mas sempre surpreendentes.

As vezes se assustava com os olhares de quem vinha. Brilhavam com poder. Uma forma diferente de olhar. Era o poder da condição. Da condição do contar, do ter, do falar, do fazer, de conquistar.
Com o passar do tempo, aprendeu a ouvir e a não se abalar pelo falso poder de quem tem a condição.
Com o passar do tempo, aprendeu a diferenciar.  Entendeu metáforas, sinais e a ler entre as linhas.

Quando o mar se revoltava, ninguém de fora aparecia. Com o passar do tempo, aprendeu a controlar o constante desejo do novo.
Aproveitava os momentos de solidão. Deixava-se levar por quem sempre esteve por perto. E gostava.
Com o passar do tempo, percebeu que era mais tranquilo só.
Mesmo assim, vivia rodeado de gente.  E gostava.
Com o passar do tempo, criou nós. Percebeu as diferenças entre as pessoas, aprendeu a respeitar, a questionar e a perder.
 Com o passar do tempo, parou de esperar. Simplesmente vivia, um dia após o outro. Com o passar do tempo, se acalmava e se revoltava como o mar.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Momento Fricção – Encontro de classe


Trabalhar no Estado é assim.
É ouvir que antes era melhor.
 Que seu trabalho era mais valorizado.
Tem dias que você chega e logo recebe uma notícia estranha, como hoje, que correu um boato, antigo até, de que o tempo de trabalho dos professores aumentaria, pelo mesmo salário.
Nesse mesmo Estado você vê pessoas se indignando e pessoas conformando.
Alunos interessados, outros cansados e alguns nem ligando.
Mas é sempre uma surpresa. No Estado é assim.

Talvez por isso essa instituição ainda sobreviva, apesar de tantos esforços dos sucessivos governos em acabar com ela.
Tem aulas que você ensina.
Em muitas outras, se surpreende, aprende e deixa rolar.
Aprende.
No Estado é assim, um mundo a sua frente.
 Educação popular.

Educação pública, gratuita e de qualidade.
 No Estado é assim.
 O público e o de qualidade têm significados diversos, opostos, divergentes.
Respeito aos saberes, politização, números, propaganda, gastos.
No Estado é assim.

 Espaço de troca. De respeito, de anarquia, de democracia e contradição.
Cada dia um aprendizado.
 Cada dia uma luta. Deles. Nosso. Da gente.
De refletir sobre as relações, conteúdos, ações.
Professores com péssimas condições de trabalho. Alunos também.
Um encontro de pessoas com péssimas condições de trabalho.
Trabalhadores. Encontro de classe.

Tem dias que  a aula é deles. Eles dão aula.
Verdadeiro seminário sobre a vida. De ontem, hoje e provavelmente do amanhã.
 No Estado é assim.
 Faz tudo mudar.
 Mas nada muda.

domingo, 20 de março de 2011

Momento Fricção- Um final de semana com Obama

Lena chega, olha em volta e reconhece o entorno. É uma grande cidade como tantas outras, como a de onde veio. Ruas, árvores, carros, pessoas andam por todos os lados. A hora! Era hora de encontrar quem ela realmente tinha vindo ver. Até lá, esperava pacientemente pela amiga e admirava o vai e vem das coisas. Na televisão do saguão a imagem de um homem que chegaria naquele dia. Ela sentia um clima de expectativa no ar. Todos comentando. Era uma das figuras públicas mais importantes da época. Alguns falavam da festa que fariam em sua homenagem e da insatisfação com o cancelamento do seu ato público. Uns mais preocupados com o fim da festa, outros com os motivos pelos quais ele estaria pisando nesse solo.

Era realmente um lugar espetacular. Nesse aparente caos as peças se encaixavam, uma a uma, numa lógica sem sentido. O que movia toda aquela gente, naquele lugar, naquela hora? Por que tanta agitação desse lado tão sem graça da cidade? Deve ser trabalho. Mundo movido pelo trabalho. Isso também se parecia com o lugar de onde vinha. O dia estava lindo, outras coisas bem mais legais poderiam ser feitas, mas todos corriam de um lado para o outro, a trabalho, ou buscando um. “Então ele não vai mais?” escuto, ao fundo, enquanto o outro responde: “ pelo jeito não. Vai fazer num local fechado. Deve estar com medo de manifestações.” “ Mas vão falar o que do cara?” “O, meu chapa, não é só o cara em si, mas tudo que ele manteve e o que ele representa. Ele manteve o que sempre se fez. Apoio a ditaduras, intervenções militares desnecessárias, preocupação com o petróleo, com o lucro. Por que você acha que ele vem para cá?” “Olha, ta na hora do hino. Que emoção! E olha a roupa deles...É, claro, tem o petróleo. E o Brasil está com tudo com o pré-sal, não é mesmo? E o que foi que aconteceu na embaixada, mesmo? Ouvi que umas pessoas foram presas.” Naquele momento chega sua amiga. Com um abraço forte elas se encontram e somem entre a multidão barulhenta da cidade.

“ Vamos comer? Estão todos te esperando lá em casa!” E como refrescou. A casa, cheia, comemorava um aniversário embalada a muito samba. O clima do carnaval ainda estava no ar, como ela explicou. O que seria esse clima de carnaval, ainda não entendia. Só via que todos cantavam, conversam e se distraiam. Muitas mulheres na cozinha, servindo os convidados. O papo era o mesmo da sua chegada. Falavam sobre as mudanças no Oriente Médio, outros sobre as férias. E os olhares. Por todos os lados, olhares. Com o anoitecer, foi inevitável a dança. E as conversas mudavam de caráter.

“Você já viu a lua?” Lena, meio desorientada, olha para o céu e vê aquele espetáculo lindo. “Nossa!” Sem perceber, continuaram a conversa por horas. Tudo interessava aos dois. Os acontecimentos políticos mais recentes, o lugar onde estavam, a música, a vida. Depois de um tempo, se separaram. A música estava ótima e isso não foi problema algum. Logo já estava de papo com umas amigas. Tinha curiosidade de saber mais sobre o lugar. Como conseguiam viver com tantas diferenças sociais? Que naturalidade era essa de saber que alguns tem muito mais que a maioria e que o que importava mesmo era fazer parte do alguns, e não estender essa condição social e de poder a todos? Como poderiam fazer isso? Quem se interessava por isso? Ali, apesar dos comentários solidários, pouco era feito para que isso acontecesse. Soavam como frases feitas, para liberar a consciência do papel e da força de cada um na mudança. Ficou intrigada com o fato e foi interrompida com um “ Não é, Lena?” “Desculpa, estava distraída. Do que mesmo estão falando?” “ Eita, como você está aérea. Pensando na dança, né?” “Quem? Ah, claro. É, ele é interessante. Mas não, estava viajando em outras coisas. Quem é ele, afinal?” “Ele é uma gracinha. E está soltinho por aí. Aproveite!” “ Hum.. sei. Na realidade, sei não. Isso não me agrada muito. Já conversamos, foi bacana. Acho que ele está jogando o mesmo papo para aquela menina ali do lado.” “Pode ter certeza, Lena!” “ Pô, que cara maneiro! Só que eu passo”. “ Que exagero, Lena. Ele é muito bacana. Senti uma ironia no seu comentário” “ São outros padrões. Sei lá. Vamos dançar?”

Em casa, ficou intrigada com as diferenças entre lugares. Como se organizam, como vivem, como se relacionam. Algumas coisas marcaram com enorme carinho e outras como grandes contradições. Voltou. Atravessando a cidade no caminho para casa, ultrapassando o forte esquema de segurança imperial para o pronunciamento da tal figura internacional, acompanhando as passeatas que insistem em mostrar as divergências de opiniões entre o Estado e o povo, sentindo uma aparente tranqüilidade no ambiente devido ao acordo com os poderes territoriais locais, se despede da amiga. “Obrigada. Foram ótimos momentos, mas é hora de voltar”. Nos olhares que se cruzaram e os sorrisos que saíram, a certeza da troca, em meio a tantas ilusões, distorções, opiniões, dúvidas. Aquilo era real. Nem tudo se desmancha no ar.