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terça-feira, 10 de julho de 2012

A Revolta da Burguesia Assalariada


Slavoj Žižek, no London Review of Books, traduzido por Heloisa Villela

Como foi que Bill Gates se tornou o homem mais rico dos Estados Unidos? A riqueza dele não tem nada a ver com a Microsoft produzir bons programas a preços mais baixos que a competição, ou com ‘explorar’ seus trabalhadores com mais sucesso (a Microsoft paga um salário relativamente alto a seus trabalhadores intelectuais). Milhões de pessoas ainda compram programas da Microsoft porque a Microsoft se impôs quase como um padrão universal, praticamente monopolizando o mercado, como uma personificação do que Marx chamou de “intelecto geral”, com o que ele quis dizer conhecimento coletivo em todas as suas formas, da Ciência ao conhecimento prático. Gates privatizou eficazmente parte do intelecto geral e ficou rico ao se apropriar do aluguel deste intelecto.
A possibilidade de privatização do intelecto geral é algo que Marx nunca previu nos seus escritos a respeito do capitalismo (em grande parte porque ele negligenciou a dimensão social do capitalismo). Ainda assim, isso está no centro da luta atual sobre propriedade intelectual: na medida em que o papel do intelecto geral – baseado no conhecimento coletivo e na cooperação social – aumenta no capitalismo pós-industrial, a riqueza se acumula de forma desproporcional no trabalho gasto na sua produção. O resultado não é, como Marx parecia esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a gradual transformação do lucro gerado pela exploração do trabalho em renda apropriada através da privatização do conhecimento.

O mesmo vale para os recursos naturais, cuja exploração é uma das principais fontes de renda do mundo. Existe uma luta permanente sobre quem fica com essa renda: os cidadãos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais. É irônico que ao explicar a diferença entre trabalho (que produz valor excedente) e outras commodities (que consomem todo seu valor no uso), Marx tenha dado como exemplo o petróleo, uma commodity ‘ordinária’. Hoje, qualquer tentativa de ligar as flutuações do preço do petróleo às oscilações de seu custo de produção ou ao preço da exploração do trabalho não faria o menor sentido: o custo de produção é insignificante como proporção do preço que pagamos pelo petróleo, preço que na realidade é a renda que os donos do recurso podem extrair graças à oferta limitada de petróleo.

A consequência do aumento de produtividade causado pelo crescimento exponencial do conhecimento coletivo é uma mudança no papel do desemprego. É o próprio sucesso do capitalismo (maior eficiência, aumento de produtividade, etc.) que produz desemprego, tornando mais e mais trabalhadores inúteis: o que deveria ser uma bênção – menor necessidade de trabalho pesado – se torna uma maldição.
Ou, para explicar de outra maneira, a oportunidade de ser explorado em um emprego de longo prazo agora é experimentada como um privilégio.

O mercado mundial, como disse Fredric Jameson, é “um espaço onde todo mundo já foi um trabalhador produtivo e no qual o trabalho começou, em toda parte, a se precificar fora do sistema”. No atual processo de globalização capitalista, a categoria dos desempregados não se limita mais ao “exército industrial de reserva” de Marx; ela também inclui, como nota Jameson, “essas massas populacionais do mundo que ‘despencaram da história’, que foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do Primeiro Mundo capitalista e descartadas como casos terminais ou sem esperança: os chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou de desastres ecológicos, os que caíram na armadilha pseudo-arcaica dos ‘ódios étnicos’, objetos da filantropia ou das ONGs ou alvos da guerra ao terror”.

A categoria dos desempregados foi, assim, expandida para incluir uma vasta esfera de pessoas, dos desempregados temporariamente aos que não podem mais conseguir emprego e estão permanentemente desempregados, aos habitantes de guetos e favelas (quase todos esses descartados por Marx como parte do lumpemproletariado), e finalmente todas as populações e estados excluídos do processo capitalista global, como os espaços vazios de mapas antigos.

Alguns dizem que esta nova forma de capitalismo oferece novas possibilidades de emancipação. Essa é a tese de “Multitude”, de Hardt e Negri, que tenta radicalizar Marx, afirmando que se nós simplesmente cortarmos a cabeça do capitalismo, teremos o socialismo. Marx, eles argumentam, estava limitado historicamente: ele pensou em termos de trabalho industrial centralizado, automatizado e organizado hierarquicamente. Como resultado, entendeu o “intelecto geral” como algo semelhante à agência de planejamento central; somente hoje, com o surgimento do “trabalho não-material”, uma mudança revolucionária se tornou “objetivamente possível”.
Esse trabalho não-material se estende entre dois polos:  do trabalho intelectual (a produção de ideias, textos, programas de computador, etc.) a trabalhos afetivos (desempenhados por médicos, babás e comissários de bordo). Hoje, o trabalho não-material é hegemônico, no sentido com que Marx proclamou, no capitalismo do século 19, que a produção industrial em larga escala era hegemônica: ele se impõe não através da força dos números, mas por desempenhar um papel-chave, emblemático de toda a estrutura.

O que emerge é um vasto novo domínio chamado de “commons”: conhecimento compartilhado e novas formas de comunicação e de cooperação. Os produtos da produção não-material não são objetos, mas novas relações sociais e interpessoais; a produção não-material é biopolítica, é a produção da vida social.
Hardt e Negri descrevem aqui o processo que os atuais ideólogos do capitalismo pós-moderno celebram como a passagem da produção material para a simbólica, da lógica da hierarquia centralizadora para a lógica da auto-organização e da cooperação multicentralizada.

A diferença é que Hardt e Negri são fiéis a Marx: eles tentam provar que ele estava certo, que o surgimento do intelecto geral é, a longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pós-moderno afirmam exatamente o oposto: a teoria marxista (e a prática), argumentam, continua limitada pela lógica hierárquica do controle centralizado do estado e por isso não consegue lidar com os efeitos sociais da revolução da informação.

Existem boas razões empíricas sustentando o argumento deles: o que de fato arruinou os regimes comunistas foi sua incapacidade de se acomodar à nova lógica social sustentada pela revolução da informação. Eles tentaram dirigir a revolução, fazer dela mais um projeto em grande escala de um governo centralizado. O paradoxo é que o que Hardt e Negri celebram como uma oportunidade única para derrubar o capitalismo é comemorado pelos ideólogos da revolução da informação como o surgimento de um capitalismo novo, sem ‘fricção’.

A análise de Hardt e Negri tem alguns pontos fracos, o que nos ajuda a entender como o capitalismo tem conseguido sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Os dois subestimaram a extensão do sucesso do capitalismo de hoje (ao menos no curto prazo) na privatização do intelecto geral, além de subestimarem a dimensão de como os trabalhadores, mais do que a própria burguesia, estão se tornando supérfluos (com um número cada vez maior de trabalhadores se tornando não apenas desempregados temporários, mas estruturalmente não-empregáveis).

Se o capitalismo antigo idealmente envolvia o empresário que investia (o seu ou emprestado) dinheiro na produção, que ele organizava e geria, e depois tirava lucro disso, um novo tipo ideal está surgindo hoje: não mais o empresário que é dono de sua companhia, mas um administrador especializado (ou um conselho de administração presidido por um CEO), que governa a empresa de propriedade dos bancos (também geridos por administradores, que não são donos do banco) ou investidores diversos.  Neste novo tipo de capitalismo ideal, a velha burguesia, tornada desfuncional, é reciclada como gerenciadora assalariada: os membros da nova burguesia recebem salários, e mesmo quando são donos de parte da empresa, ganham ações como parte de sua remuneração (“bônus” pelo seu “sucesso”).

Essa nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas no formato (mistificado) do assim chamado “superávit salarial”: eles recebem bem mais que o “salário mínimo” do proletariado (quase sempre um ponto mítico de referência, cujo único exemplo real na economia global de hoje é o salário dos trabalhadores na indústria têxtil da China ou da Indonésia), e é esta distinção em relação proletário comum que determina o status da nova burguesia.

A burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer: capitalistas reaparecem como um subsetor de trabalhadores assalariados, como administradores qualificados para ganhar mais pela virtude de sua competência (por isso a avaliação pseudocientífica é crucial: ela legitima as disparidades).  Longe de se limitar aos administradores, a categoria de trabalhadores que ganha superávits salariais se estende a todo tipo de especialista, administradores, servidores públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais e artistas. O superávit assume duas formas: mais dinheiro (para gerentes, etc.), mas também menos trabalho e mais tempo livre (para – alguns – intelectuais, mas também para administradores do estado, etc.).

O processo de avaliação usado para decidir quais trabalhadores devem receber superávit salarial é um mecanismo arbitrário de poder e ideologia, sem conexão séria com a verdadeira competência; o superávit salarial existe não por razões econômicas, mas políticas: para manter uma “classe média” e preservar a estabilidade social.
A arbitrariedade na determinação da hierarquia social não é um erro, mas objetivo do sistema, com papel análogo ao da arbitrariedade no ‘sucesso de mercado’.

A violência não ameaça explodir quando existe muita contingência no espaço social, mas quando se tenta eliminar a contingência. Em “La Marque du sacré”, Jean-Pierre Dupuy trata a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) que têm como função tornar não humilhante a relação de superioridade: a própria hierarquia (uma ordem imposta externamente que me permite experimentar meu status social mais baixo de forma independente do meu valor inerente); desmistificação (o procedimento ideológico que demonstra que a sociedade não é uma meritocracia, mas o produto de disputas sociais objetivas, que me permite evitar a conclusão dolorosa de que a superioridade de alguém sobre mim é resultado dos méritos e realizações do outro); contingência (mecanismo parecido, através do qual entendemos que nossa posição na escala social depende de uma loteria natural e social; os sortudos nascem com os genes certos, em famílias ricas); e complexidade (forças incontroláveis têm consequências imprevisíveis; por exemplo, a mão invisível do mercado pode me levar ao fracasso e o meu vizinho ao sucesso, mesmo que eu trabalhe muito mais e seja bem mais inteligente).

Ao contrário do que parece, esses mecanismos não contestam ou ameaçam a hierarquia, mas a tornam mais palatável, já que “o que dispara o tumulto da inveja é a ideia de que o outro não merece a sorte que tem e não a ideia oposta – a única que se pode expressar abertamente”. Dupuy tira desta premissa a conclusão de que é um grande erro pensar que uma sociedade razoavelmente justa, que se enxerga como justa, estará livre de ressentimento: pelo contrário, é nessas sociedades que aqueles que ocupam as posições inferiores encontrarão nas explosões violentas de ressentimento um veículo para seu orgulho ferido.

Isso está conectado ao impasse que a China enfrenta hoje: o ideal das reformas de Deng era introduzir o capitalismo sem uma burguesia (já que ela formaria a nova classe dominante); agora, porém, os líderes da China estão descobrindo dolorosamente que o capitalismo sem uma hierarquia estabelecida, possibilitada pela existência de uma burguesia, gera instabilidade permanente. Então, que caminho a China seguirá?

Os ex-comunistas estão emergindo como os administradores mais eficientes do capitalismo porque sua inimizade histórica com a burguesia como classe casa perfeitamente com a tendência atual do capitalismo de se tornar um capitalismo administrativo, sem burguesia – nos dois casos, como Stalin disse faz tempo, “os quadros decidem tudo”. (Uma diferença interessante entre a China e a Rússia de hoje: na Rússia, os professores universitários têm salários ridiculamente baixos – eles já são, de fato, parte do proletariado – enquanto na China recebem um superávit salarial confortável para garantir sua docilidade).
A noção de superávit salarial também coloca sob nova ótica os constantes protestos “anticapitalistas”.  Em momentos de crise, o candidato óbvio para apertar o cinto são as classes mais baixas da burguesia assalariada: protestos políticos são seus únicos recursos se quiserem evitar se juntar ao proletariado.
Apesar de seus protestos serem, nominalmente, dirigidos contra a lógica brutal do mercado, elas estão protestando, de fato, contra a erosão gradual de sua posição econômica privilegiada (politicamente).
Em “Atlas Shrugged”, Ayn Rand tem a fantasia de fazer greve contra capitalistas “criativos”, uma fantasia que encontra realização pervertida nas greves de hoje, quase todas sustentadas por “burguesias assalariadas” movidas pelo medo de perder o superávit salarial. Esses não são protestos proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido a proletariado.

Quem tem coragem de entrar em greve hoje, quando ter um salário fixo é, em si mesmo, um privilégio? Trabalhadores com baixos salários (o que resta deles) da indústria têxtil, etc., não; mas os trabalhadores privilegiados que têm emprego garantido (professores, empregados dos transportes públicos, policiais), sim. Isso também explica a onda de protestos estudantis: sua principal motivação é, sem dúvida, o medo de que a educação superior não garanta um superávit salarial mais tarde, na vida.
Ao mesmo tempo está claro que o grande renascimento de protestos no último ano, da Primavera Árabe à Europa ocidental, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não deve ser descartado meramente como uma revolta da burguesia assalariada. Cada caso deve ser analisado de acordo com seus próprios méritos. Os protestos estudantis contra a reforma universitária na Grã-Bretanha são claramente diferentes dos distúrbios de agosto, que foram um carnaval consumista de destruição, uma verdadeira explosão dos excluídos.

Pode-se argumentar que os levantes no Egito começaram, em parte,  como uma revolta da burguesia assalariada (com jovens educados protestando por conta de sua falta de perspectiva), mas este foi apenas um dos aspectos de um protesto mais amplo contra um regime opressivo. Por outro lado, o protesto não mobilizou, realmente, trabalhadores mais pobres e camponeses e a vitória eleitoral dos islâmicos deixa clara a estreita base social do protesto secular original. A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas, foi criada uma nova burguesia assalariada (especialmente na inchada administração estatal), graças à ajuda financeira da União Europeia, e os protestos, em boa parte, foram motivados pela ameaça do fim disso.

A proletarização das camadas mais baixas da burguesia casa, no oposto extremo, com a alta remuneração irracional de administradores e banqueiros do topo (irracional como demonstraram as investigações nos EUA, já que ela tende a ser inversamente proporcional ao sucesso da companhia). Ao invés de submeter essas tendências à crítica moralizante, devemos lê-las como sinais de que o sistema capitalista não é mais capaz de uma estabilidade autorregulada – em outras palavras, ele ameaça ficar fora de controle.

sábado, 16 de junho de 2012

Copa do Mundo e Jogos Olímpicos: “O espetáculo e o mito”  Raquel Rolnik

14 Jun 2012
Há evidências empíricas de que sediar grandes eventos esportivos traz desenvolvimento econômico e social?

Traz ganhos. A discussão é: ganhos para quê? E ganhos para quem? Porque, sim, mobiliza uma enorme quantidade de dinheiro e de investimentos. Não há a menor dúvida de que esses grandes eventos transformaram-se, sobretudo a partir do final dos anos 1980, numa espécie de constituição de branding: uma marca que é vendida associada à marca de uma cidade e de um país. Portanto, todas aquelas empresas que se associam a essa marca também são automaticamente promovidas no mercado internacional. E é uma estratégia bem-sucedida, porque o evento é visto por bilhões de pessoas, uma oportunidade única para se comunicar com essa audiência ou com esse público consumidor. É disso que se trata: de corporações e grandes negócios, um grande evento de marketing e de marcas associadas a ele.
Claro que, dependendo da cidade, do contexto e do país, eventualmente esses momentos são utilizados também para realizar projetos que beneficiam não só as pessoas que vão usufruir do evento naquele momento, mas também outras pessoas a longo prazo. Basicamente, Barcelona ficou notabilizada por utilizar os Jogos Olímpicos para implementar um projeto de renovação urbanística e se recolocar no cenário internacional de cidades em um momento em que a gente vivia um processo muito radical de reestruturação produtiva com a globalização. Barcelona era uma cidade industrial e portuária e estava perdendo completamente o seu lugar, porque esse lugar da indústria não estava mais se sustentando economicamente. Ao mesmo tempo, a gente também vive nesse momento a grande era dos reajustes estruturais, da retirada do governo central e dos grandes investimentos públicos. As cidades começam a entrar num jogo de autopromoção no cenário internacional para atrair investimentos externos e promover uma reengenharia da sua base econômica.

Quando se discute o legado desses eventos, sempre se menciona Barcelona-92. Há algo que se compare na história dos Jogos Olímpicos e das Copas do Mundo?
Barcelona estabeleceu uma espécie de paradigma de que os Jogos sempre se associam a um legado de transformação urbanística. Mas os projetos de intervenção urbanística não são neutros. Tem beneficiários e tem prejudicados. É importante distinguir as duas coisas.
Quando se conta a história de Barcelona, separa-se a experiência específica dos Jogos Olímpicos da história imediatamente anterior. Para entender Barcelona, é preciso entender que mais de uma década antes (dos Jogos) a cidade ganhou um governo autônomo socialista, num movimento que era importantíssimo para a Catalunha, de afastamento do controle autoritário e centralizado do franquismo. Trata-se de uma luta democrática e popular que durante pelo menos uma década fez um investimento radical na melhoria das condições de vida dos trabalhadores e de suas periferias, investiu na melhoria das condições urbanísticas desses bairros populares, investiu na moradia, aumentou tremendamente o grau de participação popular na gestão da cidade. Então, quando Barcelona desenha o seu projeto olímpico, isso não veio do nada. Não se abriu o céu e caíram as Olimpíadas, como está acontecendo no Brasil. Mesmo assim, houve resistência, houve questionamento, houve luta, houve transformação da pauta de intervenção como consequência dessas lutas e desses questionamentos. Só que ninguém conta essa parte da história. Essa parte da história sumiu.

Então o grande paradigma de legado associado às Olimpíadas só aconteceu porque já existia uma trajetória independente do evento?

Evidentemente. Você pode ver o caso de Londres agora (sede das Olimpíadas de 2012). O projeto de Londres também tem uma história muito mais longa de integração, de intervenção no East End, historicamente a região com condições urbanísticas mais precárias. Além da construção de um grande parque público, a maioria dos equipamentos olímpicos será desmontada e, no seu lugar, vai ter habitação, comércio e serviços, com uma cota de 35% para habitação social subsidiada. E também no caso de Londres houve questionamento, também teve debate público e também o projeto foi transformado em razão disso.
Eu diria que onde já existe um processo público de debate e de intervenção territorial sobre a cidade, as Olimpíadas aparecem como uma oportunidade a mais dentro de um caminho para implantar esse plano. Onde não tem nada, cai do céu um projeto que não tem absolutamente nada a ver. O caso do Brasil é emblemático. As cidades brasileiras passaram, depois da aprovação do Estatuto das Cidades, no ano 2000, a elaborar projeto de plano diretor, de planejamento participativo, pensando no futuro dessas cidades. Esses planos e projetos estão todos na gaveta ou foram rasgados.
O grande projeto olímpico do Rio de Janeiro foi elaborado conjuntamente e quase que diretamente por incorporadores privados que vão lançar um enorme investimento imobiliário na Barra da Tijuca e em Jacarepaguá, região na qual a intervenção urbanística pelo setor privado já estava acontecendo. Não mudou nada. Ao contrário, reforça a centralidade da Zona Oeste, uma centralidade de classe média, para poucos. É a extensão da Zona Sul. Não é o Rio de Janeiro que mais precisa de uma intervenção urbanística, como os bairros centrais. Tem tudo a ver com processos de valorização privada e muito pouco com o interesse público e uma revisão de tendências, de modo que os elementos perversos que existem no nosso urbanismo precário pudessem ser revertidos.

O legado inequívoco é a exceção dentro do histórico de grandes eventos esportivos?

Exatamente. Tem que entender isso no âmbito do que aconteceu no mercado de terras e no mercado imobiliário, com a globalização. O mercado imobiliário internacional passou a ser uma parte fundamental do circuito financeiro. A gente viveu uma “financeirização” do processo de produção de moradia e de cidades. Isso significa – e isso a gente viu com a crise americana – que os ativos imobiliários, mais do que representarem um valor de uso para as cidades, são um ativo financeiro passivo de especulação. Veja o que é Dubai. São operações de abertura de frentes para atração desses capitais financeiros. O megaevento nada mais é que um estande de vendas, fantástico e imediato, ainda por cima associado ao espírito do esporte, da solidariedade entre os povos, do nacionalismo segundo o qual o país vai mostrar ao mundo do que é capaz. Associado a todos esses elementos, é muito mais poderoso.

De onde vem esse mito da bonança socioeconômica associada à Copa do Mundo ou às Olimpíadas?

Se a gente olhar para a história dos grandes Jogos, eles tiveram lá as suas fases. Eles começam a ter muita importância, do ponto de vista cultural e geopolítico, no pós-guerra, quando se tratava de um espaço de conciliação entre as nações. Logo em seguida, no período da Guerra Fria, era muito importante para ver quem ia ganhar. Se eram os Estados Unidos, portanto a visão do livre mercado capitalista, ou se era o bloco soviético, e, posteriormente, a China. Era um encontro de forças, um cenário de reafirmação da Guerra Fria.
As Olimpíadas começam a ser associadas a uma intervenção na cidade nos Jogos de Los Angeles, em 1984, quando se mobiliza pela primeira vez o capital corporativo para fazer investimentos na cidade de forma mais permanente. E, desde então, toma conta. É um espaço basicamente das corporações, mediado pelos comitês olímpicos e comitês organizadores da Copa do Mundo, portanto também dos governos.
E aí, crescentemente, surgem as operações com base no tal do legado e na transformação urbanística. Mas isso, como falei, coincide com dois fenômenos: a diminuição do papel dos Estados para atendimento de demandas urbanísticas e, consequentememte, a entrada do capital privado na gestão; e as cidades competindo na arena internacional globalizada para ver quem capta investimentos de um excedente financeiro que fica pairando sobre o planeta procurando onde se alocar. Os Jogos Olímpicos e as Copas do Mundo abrem um espaço para que esse investimento aconteça, especialmente pelo que carregam também de elementos simbólicos, com a vantagem de ser um ambiente de consenso. Todo mundo gosta, todo mundo acha legal.

É por isso que existe essa expectativa de um legado transformador, quando, na verdade, o saldo convincente para os interesses difusos é raríssimo?

É um espetáculo que mobiliza corações. A mobilização é real. Você não só assiste. Você torce, você sofre, você chora. O evento trabalha com esses sentimentos e por isso é tão consensual. Tudo que se associa ao evento é contaminado por esse mesmo espírito.
Por outro lado, quando você tem uma intervenção física, as pessoas enxergam que alguma coisa foi feita. Em muitos casos, há melhorias. Se você fizer o balanço de ganhos e perdas, a maior parte da população não ganha tanto e muito poucos ganham muito, mas há transformações reais. Na África do Sul, mesmo com todas as limitações, a ligação de corredor exclusivo de ônibus para Soweto muda completamente a vida de quem vive em Soweto. Não é imaginário.
Mas tem efeitos perversos que não são lembrados, que não são tocados. Falando como relatora da ONU para o direito à moradia adequada, e em geral para os direitos humanos: o foco principal dos direitos humanos são os mais vulneráveis. Esses deveriam ser os prioritários e, em geral, são os prejudicados. São os que acabam carreando os efeitos perversos.

Sobre o envolvimento da sociedade civil, mencionado pela senhora como fator preponderante para o sucesso de Barcelona: nós aqui no Brasil ainda temos tempo de fazer isso, considerando o horizonte de 2014?

Já começa por quem formulou o projeto olímpico. Quem participou dele? E do projeto das cidades para a Copa? Esses projetos são definidos a portas fechadas entre os agentes políticos e as corporações envolvidas com a produção do evento. Ponto. Tudo o que nós construímos no Brasil de participação popular, de conselhos, de planejamento participativo, está sendo completamente deixado de lado no momento de definição das obras para a Copa e para as Olimpíadas.

A senhora vê diferença na forma de condução desses processos entre países centrais e os menos desenvolvidos?

Uma coisa é você fazer uma grande operação de renovação urbanística quando um grau básico de urbanidade já foi conquistado, como era o caso de Barcelona, ou como é o caso de Londres. Drante 50 anos, Londres fez uma política muito forte de investimento em habitação social, com 30% de todos os empreendimentos obrigatoriamente produzindo habitação popular, e por isso conseguiu praticamente zerar as condições precárias de moradia.
Outra coisa é a situação do Brasil, ou de Nova Délhi, na Índia, onde aconteceram os Commonwealth Games. Parece-me que, no nosso caso, esse tal legado deveria ser totalmente dirigido para constituir esse grau básico de urbanidade ou pelo menos ir na sua direção. Mas não. O que a gente viu é que as pessoas que moravam em condições precárias foram simplesmente expulsas, suas casas destruídas e nenhuma alternativa apresentada. E nós estamos repetindo aqui no Rio de Janeiro, neste momento, a mesma coisa. Em outras cidades brasileiras também. É assim: “Aqui vai ter um estádio? Ah, beleza, vamos saindo, vamos tirando tudo fora”, sem respeitar os direitos dessas pessoas e sem equacionar devidamente as alternativas.

Segundo o seu relatório, os impactos quanto a moradia se repetem, sobretudo nos países menos desenvolvidos, em razão da urbanização precária?

Exatamente. Os impactos se repetem e são mais graves. Mas isso aconteceu em Atenas também.

Essa nova tendência de sediar a Copa do Mundo em países periféricos diz alguma coisa sobre a FIFA (Federação Internacional de Futebol)?

A Fifa vai aonde está o dinheiro. Eu pude testemunhar isso ao preparar um relatório sobre os megaeventos e o direito à moradia e apresentá-lo à ONU. Eu me dirigi, como relatora, ao Comitê Olímpico Internacional e à Fifa para poder discutir com eles, ver como é que eles tratavam essa questão. Eram denúncias que eu recebia sistematicamente de expulsões forçadas em massa, tanto em Pequim como em Nova Délhi, como em vários lugares da África do Sul. E com o COI eu consegui estabelecer uma conversa, entender como é o processo, começar uma interlocução. A Fifa nem sequer me respondeu.

Em países periféricos não seria mais fácil empurrar certa exigências?

Não sei. Eu não fiz uma análise sobre como se deu a relação da Fifa, por exemplo, com o governo da Alemanha para a Copa de 2006. O que eu vi e que achei absolutamente escandaloso foi que a Fifa estabeleceu protocolos com os governo locais da África do Sul. Exigências do tipo: não se podia vender outra marca de cerveja, não apenas dentro dos estádios, mas num raio de quilômetros no entorno dos estádios. Foi estabelecida uma política específica com julgamento sumário no momento em que a pessoa pudesse cometer algum tipo de delito. De tal maneira que a gente pode chamar de estados de exceção e territórios de exceção. Eu não sei se essa é uma tendência no tempo, que foi piorando, ou se é porque se trata dos países emergentes. Mas, de fato, o estado de exceção tem-se ampliado. E, eu não preciso dizer, as denúncias de corrupção em relação à Fifa são notórias.

Em termos de transparência, como a senhora avalia a remoção e o reassentamento de pessoas no Brasil para a Copa e para as Olimpíadas?

É completamente obscuro. Você não consegue encontrar em nenhum lugar, dentro dos projetos formulados pelas cidades, quantas pessoas serão removidas, qual é o valor que está previsto, o que foi apresentado para elas, para onde elas vão. Quando vai haver uma remoção, a comunidade tem de conhecer o projeto, tem o direito de discutir o projeto, tem o direito de apresentar uma alternativa, de estabelecer uma negociação. Tem o direito de ter um organismo independente para a própria comunidade poder acompanhar esse processo, com assistência técnica e jurídica, por exemplo, da universidade.

A senhora está falando da lei brasileira ou internacional?

Eu estou falando dos tratados internacionais sobre o direito à moradia dos quais o Brasil é signatário e que, portanto, são plenamente aplicáveis aqui. Eu tive a oportunidade de visitar comunidades que serão objeto de remoção. As pessoas não sabem de nada, não sabem por que, não sabem quando. Os funcionários da prefeitura chegam e pintam as casas com um número, assim como os nazistas faziam na Segunda Guerra Mundial. Então você sabe que a sua casa é um alvo, mas não sabe nem quando nem o que vai acontecer com você, nem que espaço você tem para conversar. Isso está acontecendo no Morro da Providência (Rio de Janeiro), em Fortaleza, e em outras cidades, sem nenhuma transparência, numa violação clara do que dizem os tratados internacionais sobre a matéria.

Ricardo Teixeira costuma dizer que a CBF (Confederação Brasileira do Futebol) é uma entidade privada, a Copa é um evento privado, aparentemente dando a entender que ninguém tem nada a ver com isso. Como a senhora analisa esse argumento?

A CBF pode ser uma entidade privada, mas nossas cidades são públicas, pelo menos até onde eu entendo o conceito de cidade. A gente não pode simplesmente deixar que as nossas cidades, com o beneplácito e a participação dos nossos governantes, sejam transformadas por pautas definidas por uma entidade privada.

Nos estados e cidades que não costumam receber tanto investimento do governo federal, o gasto com estádios se justifica, eventualmente, pelas transformações urbanísticas associadas?

Essa é outra dimensão: o gasto público. O governo federal não está colocando recursos na construção de estádios, mas governos estaduais estão. Está-se usando subterfúgios e alguns jeitinhos para entrar dinheiro público. É o caso do Atlético Paranaense, cujo estádio vai ser ampliado e reformado com a venda de recursos de potencial construtivo. O potencial construtivo é definido no âmbito do planejamento da cidade, portanto é de propriedade pública. Tem também o próprio investimento e financiamento do BNDES com juros mais leves que os do mercado, o que configura também financiamento público.
A segunda questão é o gasto total. Vale a pena? A gente tem casos de cidades que se endividaram. Olha o que está acontecendo na Grécia. Uma parte tem a ver com o custo das Olimpíadas de Atenas e que não foi pago. Agora está-se discutindo isso na África do Sul. O balanço é vermelho. Eu vi um estudo que fez o mesmo cálculo no caso dos Commonwealth Games, na Índia. E num país que tem uma demanda de investimentos tão importante como o nosso, vale a pena gastar nesse tipo de coisa? Acho que a pergunta é totalmente procedente.

Na sua opinião, o que feriria mais o orgulho dos brasileiros? Um novo Maracanazo ou problemas de organização que pudessem prejudicar a imagem do país?

Tem uma dimensão no campo geopolítico internacional que é uma tensão entre os países emergentes e menos desenvolvidos e Europa e América do Norte. É uma tensão mais ou menos assim: “Ah, esses paisinhos emergentes não sabem organizar nada, são todos corruptos”.
Tem uma pauta muito importante que é a afirmação dos países de que podem, sim, organizar grandes eventos. Isso foi extremamente importante para a África do Sul e é extremamente importante para o Brasil no cenário internacional, porque esses países estão tentando se colocar como contrapeso político numa História de hegemonia do mundo. Não é só de nacionalismo bobo, é também uma tensão real entre países. Quem manda no planeta? Acho que o Brasil está-se colocando numa posição de liderança dos excluídos. Esse componente é também muito importante. Para o cidadão brasileiro, evidentemente, as emoções de ganhar ou perder um jogo são terríveis.Pelo amor de Deus, só falta a gente perder essa final no Maracanã, vai ser muito deprimente. Mas do ponto de vista da geopolítica internacional, o impacto de organizar mal ou bem vai ser mais importante. A questão central é: para quem?

Eu gostaria que a senhora respondesse à sua pergunta. No Brasil, a quem vai beneficiar? Qual a sua expectativa?

Eu tenho grandes dúvidas. Pelo andar da carruagem, esta é uma operação que beneficia algumas grandes corporações e empresas, que vão conseguir vender produtos e serviços, algumas nacionais, outras multinacionais. E vai encher os cofres da Fifa e da CBF e dos seus dirigentes.
Vai ter alguma coisa pontual, algum corredor de ônibus que vai beneficiar a população que não tinha um ônibus bom, alguma reforma de espaço público em que uma parte da população vai encontrar um lugar agradável em cidades que são geralmente desagradáveis, algumas operações sobre assentamentos informais. Mas o centro da agenda, a balança dos ganhos e perdas é que é a questão

http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/08/12/copa-do-mundo-e-jogos-olimpicos-o-espetaculo-e-o-mito/

segunda-feira, 11 de junho de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

David Harvey no IFCS/UFRJ Rio de Janeiro


Anotei umas ideias num papelzinho durante a palestra e vou passar para cá antes que eu perca... 
Não deu para ouvir muita coisa no início, o local definitivamente não foi o melhor para receber esse grande pensador. Estava cheio toda vida. Fiquei tentando ouvir do lado de fora. E valeu a pena. Sempre vale. Ah, e era lançamento (?) do livro O enigma do capital, que eu ainda não li, mas está na fila. 

Sua apresentação girou em torno da relação entre urbanização e crises do capitalismo e como as crises do setor de habitação estão associadas às crises financeiras. Como exemplo, citou a estratégia americana para sair da crise(1929) que, entre 1945 e 1973, apostou na suburbanização(e hoje traz sérias conseqüências para o “meio ambiente”), investindo nas cidades. Afirmou que algo semelhante vem ocorrendo na China. Sua estratégia anti-crise tem sido do tipo keynesiana, fazendo parte de um grupo de países que se diferencia dos que seguiram políticas anti-crise mais austeras.

Sobre a relação crise-urbanização, Harvey retoma mais uma vez a crise de 1929, já que ela também foi antecedida por um boom imobiliário e um colapso do mercado de propriedades então a sucedeu. Ou seja, o sistema capitalista demanda uma constante urbanização, reurbanização e novas configurações urbanas. 

E os capitalistas estão no controle da urbanização, via gentrificação, projetos de urbanização, da presença dos grandes eventos, na construção de estádios e etc. Repetidamente, ele nos lembra que a Grécia passou recentemente pela aparente euforia de um mega evento e hoje amarga numa crise sem fim, não pela preguiça de seu povo, mas por opções políticas passadas. 

Destacou a importância dos estudos sobre as resistências associadas a esses processos e sugeriu que a luta de classes passa agora também por esses movimentos e que não devemos mais nos focar somente nos estudos clássicos via proletariado (capital-trabalho). A cidade vira um espaço central de luta de classes e as populações urbanas, importantes agentes de mudanças. Os exemplos são muitos, desde a Comuna de Paris, até maio de 1968 e mais recentemente Cairo, Síria e o movimento Occupy Wall Street. Sobre esse último, sua importância se dá pela visibilidade que foi conquistada em relação a quem pertence o espaço público. Para Harvey, o movimento Occupy Wall Street deixou claro que esse espaço público é controlado pelo Estado em favor do capital. 

Como, questiona ele, organizamos nossas cidades ou nos organizamos a partir dela? Fez uma discussão sobre as fraquezas do movimento, principalmente em relação a prática política da horizontalidade. Para Harvey, esse movimento político se perde quando não permite alguma forma de verticalidade. E por fim, para falar sobre a relação da urbanização com o campo, retoma Henri Lefebvre (Revolução Urbana) para lembrar-nos que o direito à cidade é o direito à urbanização, não importa aonde.

Infelizmente, meu tema do momento, a segregação urbana, foi solenemente ignorado na seção de perguntas. Peninha... 
 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Chico é Chico


Só uma grande amiga para te colocar numa situação dessas.

Já fui muito de ir a shows, principalmente quando eles aconteciam com freqüência e pela orla carioca. Jorge Benjor, Lulu Santos, Tim Maia, Blitz, Farofa Carioca e tantos outros. De uns tempos pra cá (na minha cabeça foi quando o Circo Voador fechou para obras, mas é um marco completamente aleatório), os shows de graça ou os baratinhos e freqüentes foram substituídos por poucos shows caros.

Daí eu deixei de ir. Ora por preguiça, falta de energia para encarar grandes multidões ou por posição política mesmo. Se não pagarmos os shows caros, quem sabe eles não ficam mais baratos? Ou aumenta a pressão para um maior incentivo cultural por parte do Estado? Pensando assim já fiquei de fora de várias apresentações.

Mas na noite passada não deu! Chico estava lá. Eu iria vê-lo pela primeira vez. E que show! Tirando o Chico, que é pura luz, tinha a banda. E que banda! Muita arte aquilo lá. Cada detalhezinho de cada arranjo. Todos estavam hipnotizados com a apresentação. A iluminação e o som estavam perfeitos também.  Só uma grande amiga para me colocar ali.

O pequeno detalhe do final veio da platéia. Não sei se sou eu já com as minhas décadas de vida avançadas ou se ainda tenho algum senso de convivência social nesse Rio 40 graus. A platéia era composta por pessoas de várias idades e principalmente de muitas idosas, lindas, querendo, como todos, ouvir aquele belíssimo espetáculo.

 Já lá para o finalzinho da apresentação, uma fila se forma perto do palco, para que as pessoas, só as que estavam em pé e naquele lugar, colado ao palco, pudessem ver o grande Chico. Só que elas esqueceram que as pessoas que estavam atrás da fila então formada não poderiam ver nada com elas ali. Educadamente a organização da casa tentou explicar isso, mas foi em vão. No bis eles ficaram ali, atrapalhando a visão e o final do show.

A cena mais constrangedora foi quando Chico saiu para o bis. Essa mesma fila de gente correu para o pequeno espaço que havia entre a primeira fileira e o palco e, quando ele retornou, começou a bater fotos como se ele fosse o último mico leão dourado do Brasil. E com flash, apesar dos inúmeros avisos  para que esse mecanismo não fosse usado! Perdi as esperanças de que ele fosse voltar a tocar mais alguma coisa. Acho que ele se assustou e foi embora. O final foi lindo mesmo assim.

A saída também foi caótica. A forma mais tranqüila de sair de lá (uma casa de espetáculos no Aterro) é de taxi. Ali não passam ônibus, não tem trem, metrô, nem estacionamento certo. O jeito era pegar taxi. Só que todos fariam o mesmo e a casa estava lotada. Uma linda fila chegou a ser feita, tentaram organizar a saída daquele povo todo. Infelizmente, não deu certo! A fila não andava nunca. Os taxis já chegavam na “fila do taxi”cheios.

Aí dá uma tristezinha desse Rio de Janeiro. Será que a gente tem jeito? Ou vamos continuar nessa corrida maluca do eu quero tirar a foto do leão dourado primeiro, mesmo que seja na sua frente, atrapalhando a sua visão?  Educação, gente, educação.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ana Clara Torres Ribeiro e Milton Santos

Encontro de gigantes do pensamento social crítico: Ana Clara Torres Ribeiro e Milton Santos.
Enorme contribuição na forma como interpretamos o mundo, na definição de ciência e do papel d@s geógraf@s no capitalismo periférico.
Levanta também a discussão sobre espaço, conceito fundamental para a geografia, numa tentativa de analisar e intervir na sociedade. O espaço não é a forma nem o uso, mas o seu conjunto, um resultado das relações sociais, com papel na produção e reprodução da vida.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O trabalho, as coisas e as pessoas

Linda (e triste) animação sobre o mundo das pessoas, coisas e trabalho.
Do trabalho por trás das coisas, as pessoas por trás do trabalho e os tipos de trabalhos.
A partir de imagens singelas, sem o colorido das utopias, em expressões de apatia e cansaço, os personagens interagem com o mundo.

http://vimeo.com/32966847

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A realidade é que se engana...

Quando estamos na calçada, tomamos uma buzinada para deixar o carro passar e os outros pedestres concordam com motorista do carro.  Quando, de origem pobre, chegamos a um cargo com bons salários e imaginamos que todos, através de mais esforço, podem atingir o mesmo, como se fosse uma questao de determinação e não de oportunidades para poucos. Quando questionamos injustiças das mais variadas e somos taxados de agressivos por termos opiniões diferentes da maioria sobre um assunto. Quando há crescimento econômico com  prosperidade para uns em detrimento de outros.  Quando o ponto eletrônico torna-se instrumento necessário não mais para controlar o trabalhodor, mas uma demanda destes como garantia do pagamento das horas extras. A realidade é que se engana quando um precisa esmagar o outro para se destacar, quando a fofoca, a armação e o individualismo são mais valorizados que a ideia de conjunto. A realidade é que se engana quando o cada um por si e a competitividade são enaltecidos e estimulados ao inves da cooperação e da união.  A realidade é que se engana quando o lucro fala mais alto que as pessoas. A realiadade é que se engana...

sábado, 30 de abril de 2011

Nice day for a revolution: Why May Day should be a date to stand up and change the system

By David Harvey
Friday, 29 April 2011



May Day is the occasion we celebrate the grand achievements of the workers of the world in making our world a far, far better place to live in. There is, unfortunately, not too much to celebrate these days. The past 30 years are littered with battles and skirmishes that have resulted in defeat after defeat for organised labour.
A capitalist class gone rampant has now consolidated its power to command or corrupt almost all the major institutions that regulate the body politic – the political parties (of both left and right), the media, the universities, the law, to say nothing of the repressive state apparatus and international institutions. The democracy of money power now rules. A global plutocracy exerts its will almost everywhere unchallenged.
So what is there to celebrate? We would not, of course, have what we still have now (from pensions to the remnants of reasonable health care and public education) had it not been for the labour movement. But waxing nostalgic over the undoubted achievements and heroism of the past will get us nowhere.
May Day should therefore be about relaunching a revolutionary movement to change the world. The very thought of doing that – even just saying it and writing it down – is as exhilarating as it is astonishing.
But is this, too, a relic of revolutionary rhetoric from some bygone era? Or are we at one of those curious points in human history when the only reasonable thing to do is to demand the impossible? The simultaneous stirrings of revolt from Cairo and Damascus to Wisconsin and the streets of London, from Athens to Lima, from the murderous factories in China's Pearl River Delta to the factory occupations in Argentina, from the revival of rural rebellions in India to the movements of shanty-town dwellers in South Africa, suggests something different is in the air. An unstoppable movement of global revolt, perhaps, that says: enough is enough! It is our turn, the dispossessed and deprived of the earth, to want and get more.
Alongside all the simmering protests, innumerable practical alternatives to endless capital accumulation are being explored – co-operative movements, solidarity economies and networks, food security organisations, environmental and peasant movements, worker-controlled collectives are all in motion. A decentralised but substantial movement of people across the world already exists, seeking satisfying and humane ways to reproduce an adequate social life.
Workers unite: Indonesians march for May Day in 2003
Where we can go depends, of course, very much on where we are now. So what are the revolutionary possibilities – and even more importantly, the revolutionary necessities – of our time?
We are, I believe, at an inflection point in the history of capitalism. The compound rates of growth that have prevailed over the past two centuries are increasingly difficult to sustain. Is continuous compound growth (at a minimum rate of 3 per cent a year) in perpetuity possible in a world that is already fully integrated into the capitalist dynamic? The environmental and social consequences are bad enough but the potentially deadly geo-economic and geopolitical competition over markets, resources, land and uses of the atmosphere is even scarier.
Zero growth is a necessity and zero growth is incompatible with capitalism. The necessity is, therefore, that we must all become anti-capitalists. Alternative ways to survive and prosper must be found. That is the imperative of our times. This is what we should commit to on this May Day.
The crisis of 2007-9 and its aftermath constituted a warning shot. That crisis, many say, constituted a game-changer for how politics and the economy might work. But nobody seems to have a clear idea of what the new game might be about, what its rules might be, and who might guide it in what direction.
The bankruptcy in creative ideas today contrasts radically with earlier crises. In the 1930s, for example, a major shift in economic thinking, Keynesianism, underpinned a radical reorient- ation of state apparatuses and policies in the core regions of capitalism. It produced relatively strong and stable economic growth from 1945 to 1968 or so, in North America and Europe.
Ironically, these were years when the top marginal tax rate in the United States was sometimes as high as 92 per cent and never less than 70 (thus giving the lie to those who claim that high marginal tax rates on the rich inhibit growth). These were also years when organised labour did reasonably well in the advanced capitalist countries.
While decolonisation throughout the rest of the world proceeded apace, the spread and, in some cases, imposition of economic development projects brought much of the globe into a tense relation with capitalist forms of development and underdevelopment (prompting a wave of revolutionary movements in the late 1960s into the 1970s, from Portugal to Mozambique). These movements were resolutely resisted, undermined and eventually rolled back through a combination of local elite power supported by US covert actions, coups and co-optations.
The crisis years of the 1970s forged another radical paradigm shift in economic thinking: neoliberalism came to town. There were frontal attacks on organised labour accompanied by a savage politics of wage repression. State involvement in the economy (particularly with respect to welfare provision and labour law) were radically rethought by Reagan and Thatcher. There were huge concessions to big capital and the result was that the rich got vastly richer and the poor relatively poorer. But, interestingly, aggregate growth rates remained low even as the consolidation of plutocratic power proceeded apace.
An entirely different world then emerged, totally hostile to organised labour and resting more and more on precarious, temporary and dis- organised labour spread-eagled across the earth. The proletariat became increasingly feminine.
The crisis of 2007-9 sparked a brief global attempt to stabilise the world's financial system using Keynesian tools. But after that the world split into two camps: one, based in North America and Europe, sees the crisis as an opportunity to complete the end-game of a vicious neoliberal project of class domination: the other cultivates Keynesian nostalgia, as if the postwar growth history of the United States can be repeated in China and in other emerging markets.
The Chinese, blessed with huge foreign exchange reserves, launched a vast stimulus programme building infrastructures, whole new cities and productive capacities to absorb labour and compensate for the crash of export markets. The state-controlled banks lent furiously to innumerable local projects. The growth rate surged to above 10 per cent and millions were put back to work. This was followed by a tepid attempt to put in motion the other pinion of a Keynesian programme: raising wages and social expenditures to bolster the internal market.
China's growth has had spillover effects. Raw material suppliers, such as Australia and Chile and much of the rest of Latin America have resumed strong growth.
The problems that attach to such a Keynesian programme are well-known. Asset bubbles, particularly in the "hot" property market in China, are forming all over the place and inflation is accelerating in classic fashion to suggest a different kind of crisis may be imminent. But also the environmental consequences are generally acknowledged, even by the Chinese government, to be disastrous, while labour and social unrest is escalating.
China contrasts markedly with the politics of austerity being visited upon the populations of North America and Europe. The neoliberal formula established in the Mexican debt crisis of 1982, is here being repeated. When the US Treasury and the IMF bailed out Mexico in order to pay off the New York investment banks they mandated austerity. The standard of living in an already poor country fell by nearly 25 per cent over five or so years. By the end of the century Mexico had more billionaires than Saudi Arabia and Carlos Slim was soon to be declared the richest person in the world in the midst of burgeoning poverty.
This is the fate, along with perpetually high rates of unemployment and stagnant wages that awaits populations in the West, unless there is sufficient political resistance and popular unrest to reverse it. It is a politics of dispossession, not only of assets but of hard-won political and civil rights.
Behind this there lies a sinister history. When Ronald Reagan assumed the Presidency in 1981, he drastically reduced the marginal top tax rate from 72 to 32 per cent while lavishing all manner of other tax advantages on the corporations and the rich. He launched a huge deficit-financed arms race with the Soviet Union. The result was a rapid increase in the debt. David Stockman, Reagan's budget director, then gave the game away. The aim was to so run up the debt as to justify gutting all the social programmes and environmental regulations that had been imposed on capital in preceding years.
When Bush Jnr came to power in 2001, his Vice-President, Dick Cheney, repeatedly asserted that "Reagan taught us that deficits do not matter". So Bush cut taxes substantially on corporations and the rich. He fought two unfunded wars (costing close to a trillion dollars) and passed a costly drug prescription law that favoured big pharma. A budget surplus under Clinton was turned into a sea of red ink under Bush. Now the Republicans and the Wall Street faction of the Democrats demand the debt be retired at the expense of social programmes and environmental regulations.
This is what plutocratic politics has been about these past 30 years: raise the rate of exploitation on labour, plunder the environment mercilessly and collapse the social wage so the plutocrats can have it all.
Yet the two greatest problems of our time, according to the millennium goals signed by almost all countries in the United Nations, are the potential for ecological collapse and burgeoning social inequalities. But in the United States there is a persistent movement to exacerbate both problems. Why?
Capital throughout its history has long sought to evade certain costs, to treat them as "externalities" as the economists like to say. Environmental costs and the costs of social reproduction (everything from who takes care of grandmother and the disabled to child rearing) are the two most important categories that capital prefers to ignore. Two hundred years of political struggle in the advanced capitalist world forced corporations to internalise some of these costs either through regulation and taxation or through the organisation of private and public welfare systems.
The early 1970s was a high watermark in the advanced capitalist world for environmental regulation (in the USA the establishment of the Environmental Protection Agency and the Occupational Safety & Health Administration, for example) and state and corporate welfare schemes (the welfare state structures of Europe).
Since the 1970s, there has been a concerted effort on the part of businesses to divest themselves of the financial and political burdens of dealing with these costs. This was what Reaganism was all about. Simultaneously, the high mobility of capital (encouraged by the deregulation of finance and capital flows) permitted capital to move to parts of the world (Asia in particular) where such costs had never been internalised and where the regulatory environment was minimalist.
Meanwhile, the preferred means for seeking solutions to the key problems of environmental degradation and global poverty – the liberalised markets, free trade and rapid growth and capital accumulation favoured by the IMF, the World Bank and leading politicians in the most powerful countries – are precisely those which produce such problems in the first place. The problem of global poverty cannot be attacked without attacking the global accumulation of wealth. Environmental issues cannot be solved by a turn to green capitalism without confronting the corporate interests and the lifestyles that perpetuate the status quo.
If capital is forced to internalise all of these costs then it will go out of business. That is the simple truth. But this defines a convenient path towards an alternative to capital. What we must demand on May Day is that capital pay its social and environmental dues and debts in full. Organised labour may lead the way. But it needs allies from among the precarious workers and the social movements. We might be surprised to find that, united, we can make our own history after all. 

David Harvey is a Distinguished Professor at the Graduate Center of the City University of New York. His latest book is The Enigma of Capital: And the Crises of Capitalism is published by Profile Press

domingo, 20 de março de 2011

Momento Fricção- Um final de semana com Obama

Lena chega, olha em volta e reconhece o entorno. É uma grande cidade como tantas outras, como a de onde veio. Ruas, árvores, carros, pessoas andam por todos os lados. A hora! Era hora de encontrar quem ela realmente tinha vindo ver. Até lá, esperava pacientemente pela amiga e admirava o vai e vem das coisas. Na televisão do saguão a imagem de um homem que chegaria naquele dia. Ela sentia um clima de expectativa no ar. Todos comentando. Era uma das figuras públicas mais importantes da época. Alguns falavam da festa que fariam em sua homenagem e da insatisfação com o cancelamento do seu ato público. Uns mais preocupados com o fim da festa, outros com os motivos pelos quais ele estaria pisando nesse solo.

Era realmente um lugar espetacular. Nesse aparente caos as peças se encaixavam, uma a uma, numa lógica sem sentido. O que movia toda aquela gente, naquele lugar, naquela hora? Por que tanta agitação desse lado tão sem graça da cidade? Deve ser trabalho. Mundo movido pelo trabalho. Isso também se parecia com o lugar de onde vinha. O dia estava lindo, outras coisas bem mais legais poderiam ser feitas, mas todos corriam de um lado para o outro, a trabalho, ou buscando um. “Então ele não vai mais?” escuto, ao fundo, enquanto o outro responde: “ pelo jeito não. Vai fazer num local fechado. Deve estar com medo de manifestações.” “ Mas vão falar o que do cara?” “O, meu chapa, não é só o cara em si, mas tudo que ele manteve e o que ele representa. Ele manteve o que sempre se fez. Apoio a ditaduras, intervenções militares desnecessárias, preocupação com o petróleo, com o lucro. Por que você acha que ele vem para cá?” “Olha, ta na hora do hino. Que emoção! E olha a roupa deles...É, claro, tem o petróleo. E o Brasil está com tudo com o pré-sal, não é mesmo? E o que foi que aconteceu na embaixada, mesmo? Ouvi que umas pessoas foram presas.” Naquele momento chega sua amiga. Com um abraço forte elas se encontram e somem entre a multidão barulhenta da cidade.

“ Vamos comer? Estão todos te esperando lá em casa!” E como refrescou. A casa, cheia, comemorava um aniversário embalada a muito samba. O clima do carnaval ainda estava no ar, como ela explicou. O que seria esse clima de carnaval, ainda não entendia. Só via que todos cantavam, conversam e se distraiam. Muitas mulheres na cozinha, servindo os convidados. O papo era o mesmo da sua chegada. Falavam sobre as mudanças no Oriente Médio, outros sobre as férias. E os olhares. Por todos os lados, olhares. Com o anoitecer, foi inevitável a dança. E as conversas mudavam de caráter.

“Você já viu a lua?” Lena, meio desorientada, olha para o céu e vê aquele espetáculo lindo. “Nossa!” Sem perceber, continuaram a conversa por horas. Tudo interessava aos dois. Os acontecimentos políticos mais recentes, o lugar onde estavam, a música, a vida. Depois de um tempo, se separaram. A música estava ótima e isso não foi problema algum. Logo já estava de papo com umas amigas. Tinha curiosidade de saber mais sobre o lugar. Como conseguiam viver com tantas diferenças sociais? Que naturalidade era essa de saber que alguns tem muito mais que a maioria e que o que importava mesmo era fazer parte do alguns, e não estender essa condição social e de poder a todos? Como poderiam fazer isso? Quem se interessava por isso? Ali, apesar dos comentários solidários, pouco era feito para que isso acontecesse. Soavam como frases feitas, para liberar a consciência do papel e da força de cada um na mudança. Ficou intrigada com o fato e foi interrompida com um “ Não é, Lena?” “Desculpa, estava distraída. Do que mesmo estão falando?” “ Eita, como você está aérea. Pensando na dança, né?” “Quem? Ah, claro. É, ele é interessante. Mas não, estava viajando em outras coisas. Quem é ele, afinal?” “Ele é uma gracinha. E está soltinho por aí. Aproveite!” “ Hum.. sei. Na realidade, sei não. Isso não me agrada muito. Já conversamos, foi bacana. Acho que ele está jogando o mesmo papo para aquela menina ali do lado.” “Pode ter certeza, Lena!” “ Pô, que cara maneiro! Só que eu passo”. “ Que exagero, Lena. Ele é muito bacana. Senti uma ironia no seu comentário” “ São outros padrões. Sei lá. Vamos dançar?”

Em casa, ficou intrigada com as diferenças entre lugares. Como se organizam, como vivem, como se relacionam. Algumas coisas marcaram com enorme carinho e outras como grandes contradições. Voltou. Atravessando a cidade no caminho para casa, ultrapassando o forte esquema de segurança imperial para o pronunciamento da tal figura internacional, acompanhando as passeatas que insistem em mostrar as divergências de opiniões entre o Estado e o povo, sentindo uma aparente tranqüilidade no ambiente devido ao acordo com os poderes territoriais locais, se despede da amiga. “Obrigada. Foram ótimos momentos, mas é hora de voltar”. Nos olhares que se cruzaram e os sorrisos que saíram, a certeza da troca, em meio a tantas ilusões, distorções, opiniões, dúvidas. Aquilo era real. Nem tudo se desmancha no ar.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sessão Marx

Queria saber organizar esse blog melhor. Ou ele é limitado mesmo e eu não estou sabendo. Copio, da página da Carta Maior, interessante artigo sobre a moeda, Marx e o capitalismo

A questão da moeda

Marx definiu o caráter social do dinheiro: uma propriedade impessoal que me permite transportar, no meu bolso, o poder social e as relações sociais gerais: a substância da sociedade. O dinheiro repõe, sob a forma de objeto, o poder social nas mãos dos particulares, que exercem este poder enquanto indivíduos.
“É o ouro.
O que ele não é capaz de fazer e desfazer?”

Shakespeare

No modo de produção capitalista a moeda constitui o elo por excelência que caracteriza a relação entre as pessoas. No interior do capitalismo ela tem uma função importante dentro deste contexto, sendo, segundo Karl Marx, “uma relação social de caráter econômico”, pois a moeda faz parte das relações capitalistas de produção. É dentro desse enfoque que se vai pautar a nossa análise sobre a questão da moeda.

Ao estudar tal questão é importante e necessário começar esclarecendo que no estudo do modo de produção capitalista a circulação simples toma uma forma importante como ponto de partida que permite construir uma teoria geral da moeda. Devemos inicialmente relacionar o crédito com o modo de produção capitalista, tendo a moeda (ouro, prata) como equivalente geral, um dos aspectos da moeda.

Antes de Marx, David Ricardo – economista inglês – começa o estudo da moeda por meio do estudo do ouro como moeda mercadoria, em que seu valor, ouro ou prata, como quantidade do tempo de trabalho objetivado nelas; dessa forma, Ricardo concebe que é por meio dele que são medidos os valores de todas as mercadorias.

Mas Marx critica Ricardo, por tratar a moeda como simples mercadoria e não compreende o que distingue uma da outra, pois a dificuldade dos economistas burgueses, inclusive Ricardo, está em não demonstrar que dinheiro é mercadoria, mas sim a partir de que forma e meios o dinheiro pode ser considerado uma mercadoria.

A teoria marxista da moeda começa pela determinação da forma de equivalente geral, ou seja, moeda, que se diferencia uma mercadoria diante das outras. Marx, em "O Capital", estabelece os três pontos seguintes sucessivamente analisados por ele: a) medida dos valores; b) meio de circulação; e c) moeda ou o dinheiro. Ele encadeia estes três pontos à aparição da moeda e mais ainda, uma vez que é somente ao final dessas “etapas” que “a existência econômica” da moeda fica finalmente estabelecida com sua natureza de equivalente geral.

Na "Contribuição à Crítica da Economia Política", Marx faz a seguinte colocação:

“(...) Porque todas as mercadorias medem seus valores de troca pelo ouro, na proporção em que determinada quantidade de ouro e determinada quantidade de mercadoria contêm a mesma quantia de tempo de trabalho, o ouro se torna medida de valor”.

A transformação de valor em preço é “antes de mais nada o valor na forma de dinheiro”. O preço mercantil da moeda como meio de circulação num mercado monetário permite que se realizem compras e vendas, pois é na circulação que a moeda substitui realmente as mercadorias, dando fixação dos preços em toda a sua amplitude.

A função da moeda tem como condição a variação do seu valor e também na variação da quantidade que ela circula. Essa quantidade dos meios de circulação é dada pela soma dos valores das mercadorias e da velocidade média de sua circulação. Marx, nesse ponto, diz: “(....) Qualquer pesquisa científica sobre a relação entre quantidade dos meios de circulação e o movimento de preços das mercadorias deve ter como dado o valor do material que constitui o dinheiro”. (Contribuição à Crítica da Economia Política).

Ricardo tem uma concepção monetária em que a quantidade de moeda é dominante e o nível de preço depende dessa quantidade. Marx realiza uma distinção entre papel-moeda de Estado, moeda medida de valores e moeda meio de circulação, negando, com isso, em sua análise, a exclusividade quantitativista da moeda de papel, em que se baseiam os teóricos burgueses.

Outra função apresentada pela moeda é a de instrumento de entesouramento que Marx estabelece como uma interrupção do processo de circulação das mercadorias. “O dinheiro petrifica-se em tesouro, o vendedor de mercadoria em entesourador” (O Capital, volume I).

Uma característica do entesouramento da moeda é que ela tem uma função reguladora, pois faz parte das condições de circulação, uma vez que seu valor e sua forma específica, seu papel unificador e regulador não eliminam as características contraditórias inerentes à circulação monetária, pelo contrário, o entesouramento conserva a forma moeda de maneira diferente de todas as outras mercadorias.

A procura por dinheiro, liquidez, para entesouramento é restrita devido ao poder infinito do dinheiro por ser conversível em qualquer mercadoria.

A moeda não é neutra e não se torna completamente neutralizada, não só devido ao desenvolvimento do crédito como pela política monetária. A moeda em processo de circulação não tem dono, não pertence a ninguém, mas sua própria circulação condiciona, ou melhor, proporciona a formação de tesouros. Portanto, seguindo Marx, a sua acumulação (moeda/ dinheiro) é estéril porque a retirada do dinheiro da circulação (entesourar) impediria totalmente sua expansão como capital, pois Marx separa “poupança” e “entesouramento”, enquanto Ricardo pensa que poupar é gastar, desconhecendo o sentido do entesouramento que é acumulação de “riqueza abstrata”.

Entesourar pode apresentar-se como separação de venda e de compra de mercadoria. A moeda como meio de pagamento desempenha o seu papel no final de uma venda a crédito: para liquidar o crédito o devedor deve vender mercadorias, deixando de reserva o dinheiro obtido que deverá ser pago no prazo combinado. Para respeitar esse prazo o dinheiro entra em circulação como meio de pagamento e Marx diz: “(...) surge como mercadoria absoluta no interior da própria circulação, e não fora dela, como o tesouro”.

“Só no mercado mundial adquire plenamente o dinheiro o caráter de mercadoria cujo corpo é simultaneamente a encarnação social imediata do trabalho humano abstrato. Sua maneira de existir torna-se adequada a seu conceito” (O Capital – Karl Marx). Diante disso, a função da moeda no mercado mundial desempenha o papel de moeda universal, entretanto Marx diz:

“(...) Quanto mais se desenvolve a troca das mercadorias entre as diversas esferas nacionais de circulação mais se desenvolve a função do dinheiro universal como meio de pagamento, destinado a compensar as balanças de pagamento internacionais”. (Contribuição à Crítica da Economia Política – Marx).

O caráter social do dinheiro é dito claramente por Marx nesta passagem de seu livro "Contribuição à Crítica da Economia Política":

“(...) O dinheiro é propriedade impessoal. Ele me permite transportar comigo, no meu bolso, o poder social e as relações sociais gerais: a substância da sociedade. O dinheiro repõe, sob a forma de objeto, o poder social nas mãos dos particulares, que exercem este poder enquanto indivíduos”.

Essa relação social do dinheiro (moeda) proporciona a existência desses, e o papel do dinheiro é a troca privada entre produtores privados de mercadorias. O Estado, por outro lado, pode emitir papel-moeda de curso forçado, ou seja, ele assume, por meio da coerção pública (leis), um padrão monetário puramente convencional que tem validade geral, ou melhor, nacional, dentro de um espaço territorial delimitado, por isso o Estado tem um poder monetário limitado pelo poder social que a própria moeda lhe dá, não implicando isso poder econômico do Estado de determinar o valor da moeda.

Este poder – do Estado – é real, mas depende das leis contidas na circulação monetária.

A questão da moeda de crédito é analisada por Marx, que as separa entre “sistema monetário” e o “sistema de crédito”. Ele faz a seguinte observação: “(...) O dinheiro de crédito decorre diretamente da função do dinheiro como meio de pagamento, circulando certificados das dívidas relativas às mercadorias vendidas, com o fim de transferir a outros o direito de exigir o pagamento delas. À medida que se amplia o sistema de crédito, desenvolve-se a função de meio de pagamento exercida pelo dinheiro”. (O Capital, livro I. Karl Marx).

Outro aspecto essencial é o fato de a reprodução do capital ser afetada pela vinculação entre período de produção e de circulação, pois quanto mais tempo for necessário o segundo em relação ao primeiro tanto mais desequilíbrio; a valorização do capital é afetada, pois não se produz nenhum valor novo no processo de circulação. O tempo da circulação, ou seja, a venda das mercadorias produzidas, retorno do dinheiro e reinvestimento de capital dinheiro é ao mesmo tempo um obstáculo à produção de valor e de mais-valia.

Portanto o ditado popular: “Tempo é dinheiro”, aqui se coloca, pois quanto menor o tempo necessário em que fica a mercadoria no processo de circulação mais rápido se da à entrada de receitas das vendas. Por isto o capitalista necessita reduzir ao mínimo o tempo de circulação, ou seja, saltar etapas, não depender da entrada das receitas de acordo com as vendas. Dessa forma, Marx indica que “toda a teoria do crédito, na medida em que na historia da circulação monetária, contém o antagonismo entre o tempo de trabalho e o tempo de circulação”. Assim o crédito no sistema capitalista mobiliza recursos monetários como forma e meio de acelerar essa reprodução do capital afetando as condições monetárias da circulação, separando moeda e venda de mercadorias e aproximando a moeda, sob nova forma, ao financiamento do capital produtivo.

Marx mostra em suas análises a concentração de trabalhadores e a mobilização significativa de capital-dinheiro em que se apóia no crédito, este ligado ao fato que o empresário não mais trabalha para o cliente e sim para o mercado. Além do mais, segundo Marx, na medida em que o crédito permite acelerar e aumentar a concentração do capital numa só mão, ele contribui para encurtar o período de trabalho.

Dessa forma, o crédito interligado ao processo de reprodução do capital que alavanca quantias enormes de dinheiro produz uma mudança não só de ordem quantitativa, mas qualitativa de uma parcela de moeda com a formação de um “sistema de crédito”. Brunhoff, nesse ponto, fala o seguinte: “(...) O capitalismo é inseparável de uma circulação mercantil que deve assegurar a combinação de circulações de diferentes tipos”.

Logo, a questão da moeda é complexa e não se esgota nesse ponto, pois ela envolve questões de relevância dentro do pensamento econômico e da realidade político-econômica do mundo capitalista.

Ari de Oliveira Zenha é economista.

Arrumando a zona ou recordar é viver



Aprendi a usar mais essa ferramenta do blog, compartilhar videos interessantes. Tentei fazer uma seção separada para eles, mas ainda não me entendi direito com isso. Ia ficar mais organizado e eu estou numa fase de mega organização.
Por ser de família de "imigrantes recentes", toda vez que arrumo a casa eu encontro umas relíquias. Vou digitalizar algumas e publico algumas coisas em breve.
Hoje pela manhã, rádio ligado na CBN, quem é o entrevistado do dia? Secretário Coxinha!! Primeira pergunta:" Secretário, recebemos várias mensagens, principalmente dos professores. O salário de um professor era antes equivalente a 4 salários mínimos, agora ele está perto de 1. Qual a perspectiva de aumento?" Resposta: "errr, bem, claro..." Vai enrolar, penso eu imediatamente. E continua :" Mas isso é uma defasagem histórica (uau!) e precisa entrar no Orçamento. O que a gente vai dar é um bônus. Sabe como é, né? Trabalhar no Estado é como um trabalho em quaquer em presa." OI??? Repete, querido, eu não entendi, penso eu na minha ingenuidade jovial,  qualquer empresa não, secretário. Estamos falando de uma Secretaria, orgão público, responsável, entre outros, por gerir os recursos da área de Educação, mas JAMAIS deve ser vista como uma empresa, pois empresas, secretários, pelo que eu entendo, estão preocupadas em fazer lucro e isso vem da mais-valia extraída dos seus trabalhadores. Uma secretaria, principalmente na área de Educação, deve ser gerida e organizada com outros princíipios. Os seus princípios já estão ficando claros para mim, pensar a educacação como um negócio. Infelizmente, vamos demorar muito para avançar na Educação do Estado do Rio de Janeiro. E bônus nós não queremos. Queremos isonomia, salári igual  e digno para todos, diferenciado somente pelo Plano de Carreiras.